Caso ocorreu na madrugada do último dia 12 e chocou a região pela banalização da vida. Vítimas eram dois amigos, que fugiram, mas apenas um deles conseguiu sobreviver

Praia Grande

Mampituba/RS

A reportagem do Jornal Correio do Sul conversou com exclusividade com Otávio da Silva Alves, de 28 anos, morador do município de Mampituba, que foi um dos jovens agredidos na briga do churrasco que vitimou Isaías Pacheco, 18 anos, na madrugada do dia 12 deste mês na cidade de Praia Grande. O amigo da vítima, ainda balado, contou detalhes sobre o que aconteceu desde o início do churrasco até o momento em que corria contra o tempo para salvar a vida de seu amigo. “Tudo começou com um almoço na minha casa em Mampituba, eu e o Isaías. Como estava quente, combinamos de ir para o rio, e lá fomos. Depois seguimos até o centro de Praia Grande, havia dois amigos nossos já bem conhecidos, ficamos lá conversando. Foi, então, que chegaram outras pessoas no grupo, conhecidos dos Isaias e dos outros amigos. Eu não conhecia eles”, fala Otavio.

Durante o primeiro encontro no centro da cidade, o grupo então resolveu fazer um churrasco. Otávio ofertou a carne e se responsabilizou por assá-la. Após combinarem a confraternização do grupo, pediu a seu amigo Isaias que fosse até sua residência buscar a carne e assim o rapaz o fez. Enquanto o grupo aguardava o jovem trazer a carne, pois teve de ir até a cidade de Mampituba, os jovens continuavam bebendo no centro de Praia Grande, onde eles foram abordados pela Polícia Militar, sendo que todos foram revistados. Como não portavam nada de ilegal, foram liberados e continuaram a beber seguindo para o balneário que fica localizado na beira do rio.

Inicia uma discussão

“O Isaias chegou com a carne e demos início ao churrasco, onde eu estava assando a carne, foi então que os outros rapazes que estavam com muita fome começaram a pedir para que ‘acelerasse’ a carne. Mas ainda não estava pronta para ser servida e falei isso para eles, pois fazia pouco tempo que tinha colocado no fogo”, explica Otavio, que também comenta: “Em determinado momento tirei uma lasquinha da carne e coloquei na mesa para que eles comessem, então os rapazes mandaram deixar o espeto na mesa dizendo que a carne já estava pronta! Mas não estava”.

De acordo com o assador, atendendo ao pedido do grupo, ele serviu a carne que estava em um dos espetos e voltou para a churrasqueira, foi então que parte do grupo, usando palavras bruscas, reclamou por a carne não estar assada.

“A carne não está assada… Não somos cachorros para comer carne crua”, disseram eles ao assador tentando iniciar uma discussão. Foi então que Otavio respondeu: “Irmão, eu falei que a carne não estava assada, mesmo assim vocês estavam querendo comer, era só ter esperado um pouco mais para ficar pronta”.

Vítimas vão embora

Segundo o sobrevivente, nesse momento, ele observando as alterações dos ânimos e vendo que poderia se tornar uma briga, decidiu sair local, e convidou Isaias para ir embora. Os dois amigos após pegarem seus pertences, seguiram embora pé.

Começam as agressões

“Quando chegamos na saída do balneário, observamos que o grupo veio atrás de nós e começou a nos agredir, nos dando espetadas, em nossas costas, pernas, braços”, comenta a vítima, que ainda relata que em determinado momento, durante a primeira briga, um rapaz lhe agarrou e outro lhe deu uma garrafada na cabeça e ao mesmo tempo recebeu soco de um terceiro rapaz.

“A única coisa que eu ouvia era meu amigo me pedindo ajuda, então quando consegui me soltar dos agressores, busquei tirar Isaias daquela situação e seguimos correndo sem olhar para trás pois nossa intenção era somente fugir”.

Momento de alívio

Quando os amigos chegaram em uma ponte e viram que não tinha mais ninguém atrás deles, pararam para descansar. Foi quando Otavio percebeu o corte em sua cabeça, com grande sangramento. A dupla tentou ir até o Hospital de Praia Grande, mas antes de iniciar o trajeto, os dois amigos observaram que o pesadelo ainda não tinha acabado, pois os agressores voltaram. Dessa vez, duas bicicletas traziam quatro agressores e mais quatro rapazes vinha a pé, afim de dar continuidade as brigas e as agressões.

Agressões recomeçam

“Voltamos a correr novamente, não queríamos briga, só queríamos ir embora! Foi quando chegamos perto da ponte que liga Praia Grande, Mampituba e São João do Sul, os agressores nos alcançaram e voltaram a nos agredir de todas as formas possíveis”, relembra.

Três teriam começado a agredir Otavio de um lado do asfalto e todos os outros partiram para cima de Isaias do outro lado. “Eu consegui me soltar e fui para cima dos agressores para tirar o meu amigo, nesse momento começaram a pedir minha caixinha de som, que tomaram de assalto. Mas para mim, isso era de menos naquele momento, pois só queria tirar meu amigo de lá”.

Isaias tomba

Depois que a dupla conseguiu atravessar a ponte, já estando na cidade de Mampituba no Rio Grande do Sul, Isaias disse ao amigo que não conseguia mais correr a caiu em um canto da estrada. O amigo por sua vez vendo o perigo iminente naquela situação, disse que voltaria para buscar o amigo, pois correu à procura de ajuda. “Eu falei para ele, vou voltar e te buscar meu amigo! E nesse meio tempo não sei o que pode ter acontecido, pois segui em busca de socorro”, diz Otavio.

Otávio busca ajuda

De acordo com o rapaz, ele conseguiu chegar até a cidade de Mampituba, onde, segundo ele, foi até a prefeitura em busca de ajuda, mas não teve êxito. Assim que chegou em sua casa, ele pediu ajuda para seu cunhado e de carro retornaram para Praia Grande. Ao passar por onde estava seu amigo, mesmo muito ferido, Otavio parou para tentar reanimar Isaias, mas como não conseguiu, foi até Praia Grande onde avisou a Polícia do que tinha acontecido e como também estava ferido foi até ao hospital.

 “Logo depois do atendimento no hospital, retornei onde estava Isaias ainda desacordado, onde eu gritava pedindo socorro, tentando acordar meu amigo, mas nesse momento já era tarde demais. Em determinado momento, um casal de amigos nosso chegou no local e seguiram em busca de ajuda, onde conseguiram contato com uma ambulância de Mampituba, que demorou para chegar no local. Em seguida chegou a PM também, mas já era tarde demais.

Luta pela vida

“Desde do início da briga até às 6 horas da manhã do outro dia, não saí de perto de meu amigo, passando frio de camiseta e de chinelo, mas do lado do meu amigo. Algumas pessoas chegaram a insinuar que eu poderia ter matado meu amigo Isaias, mas foi bem ao contrário. Passei horas tentando salvar a vida dele, infelizmente não consegui, mas lutei de todas as formas que podia para ele estar aqui vivo”, comenta Otavio, que sabe que nada trará seu amigo de volta, mas pede por justiça.

Entenda o caso

Entre a noite do último sábado, dia 11, e a madrugada de domingo, dia 12, um jovem de 18 anos foi assassinado por amigos após uma discussão em um churrasco que acontecia em um balneário, próximo ao Rio do Boi, no centro de Praia Grande. A briga iniciou em Praia Grande e o homicídio ocorreu em Mampituba/RS, onde residia a vítima.

Durante a noite de sábado teve início uma discussão, pois o churrasco estava demorando para ser servido e algumas pessoas começaram a pegar pedaços da carne ainda na churrasqueira. Pelo fato da carne estar crua, acabou gerando um desentendimento. Dois amigos moradores da cidade de Mampituba preferiram ir embora.

Outros jovens que estavam no churrasco seguiram os amigos – alguns de bicicletas e outros a pé – e ainda em solo catarinense, iniciou uma briga. Isaías e o Otavio conseguiram correr, contudo foram alcançados – no Rio Grande do Sul – por pessoas que iniciaram as agressões com socos, chutes e golpes de espetos, sendo que Isaías foi golpeado com o espeto no peito e morreu no local. Polícia Civil, Polícia Militar e IML (Instituto Médico Legal) foram acionados e o corpo da vítima foi conduzido para o IML da cidade de Osório (RS).

O delegado André Gazzoni Coltro, que está à frente das investigações, esclareceu que os trabalhos iniciaram no dia do crime e aguarda perícia para elucidar se a causa da morte foi a perfuração com o espeto ou as agressões sofridas pela vítima.

A Polícia Civil já identificou as pessoas que estavam no churrasco, entre elas cinco envolvidas no assassinato, sendo que quatro são menores de idade e um tem 23 anos.  Na noite da última segunda-feira, dia 13, o maior envolvido no crime foi preso pela Polícia Civil. Os menores vão responder de acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

A Polícia Civil da Comarca de Santa Rosa do Sul ainda investiga o caso.

Isaias foi espancado e morto por colegas de churrasco, ele lutou pela vida, tentando fugir de seus agressores, mas não conseguiu
Otávio tentou salvar a vida do amigo, mas não consegui, ele também foi agredido pelo grupo e conseguiu escapar da morte13

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